Numa carruagem do metropolitano, ouve-se um acordeão com uma criança à frente pedindo esmola de boné estendido, em avanço lento, na expectativa de uma moeda, como se houvesse um céu por cima para a salvar.
Nem ouso levantar os olhos para que a dor de a ver não me atinja. Observo o chão com as suas migalhas de sons amordaçados e espero que o tempo não demore, espero que a música suma, após a travessia da indiferença alastrando nos interstícios.
O acordeão fina-se e sai logo que a composição abre as portas na paragem, sem comover alma que se visse, como se a culpa fosse da música, ou fosse de outra coisa que faltava adivinhar nos rostos virados do avesso pelo destino.
Criança e acordeão entraram na carruagem seguinte, de boné na mão, avançando com vagar, na expectativa de um gesto caridoso que os resgatasse.
Os meus olhos não estiveram lá para ver, mas sei que percorreram do princípio ao fim o corredor entre os bancos sem que alguém se compadecesse. Até vir o silêncio tombar de novo como um pedregulho sobre o instrumento com a mão da criança estendida à frente. Até acabar a carruagem e vir outra a seguir, onde a melodia recomeçasse, nota a nota. Até ao fundo da escuridão tremenda.